domingo, 18 de setembro de 2016

Ex-presidente Lula revela que está em uma bolha ao beatificar os políticos

Fernando Donasci/Reuters
Por Clóvis Rossi - Folha de São Paulo 18/09/2016.

Dizem que lobo velho perde o pelo mas não perde a manha. Pois o Luiz Inácio Lula da Silva que se apresentou na quinta-feira (15) aos seus fiéis desmentiu o ditado.

Claro que foi um espetáculo, como quase sempre ocorre quando oferecem a Lula um palco. Mas pelo menos uma parte do espetáculo foi deplorável e revela que o ex-presidente perdeu a manha.

Não vou falar das acusações a ele e de sua resposta a elas. Sobre essa parte, remeto ao texto sempre brilhante de Marcelo Coelho.

O trecho que revela absurda falta de sintonia de Lula com a realidade é aquele em que diz que "a profissão mais honesta é a do político. Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem de ir pra rua encarar o povo e pedir voto".

Primeiro, política não é profissão. É (ou deveria ser) serviço público, com perdão por soltar essa tremenda ingenuidade nos tempos que correm.

Segundo, há uma contradição entre afirmar a honestidade de todo político e, em seguida, dizer "por mais ladrão que ele seja". Ou é honesto ou é ladrão, não há meio termo possível.

Terceiro, o fato de ter que ir para a rua e encarar o povo não é demonstração de honestidade.

Há uma penca impressionante de políticos que encararam o povo para se eleger e, não obstante, estão presos ou processados por desonestidade, como sabe todo o mundo, menos Lula, aparentemente.

O que é incrível é que o ex-presidente solte essas asneiras dias após a Câmara de Deputados ter cassado o mandato de Eduardo Cunha, uma espécie de príncipe nessa profissão tão honrada segundo Lula.

Não foi esse mesmo Lula quem disse, não faz tanto tempo assim, que o Congresso Nacional era formado por "300 picaretas"? Todos eles haviam encarado o povo para se eleger.

Não é à toa, pois, que Lula se autodefina como "metamorfose ambulante". Depois de eleito, ele governou de braço dado com muitos dos que, antes, ele definira como "picaretas".

Para explicar sua tese sobre a santidade dos políticos, Lula atacou quem faz concurso público, esse cidadão que "se forma na universidade, faz o concurso e tá com o emprego garantido pro resto da vida".

Comparação absolutamente sem sentido, para não dizer coisa pior. Fazer concurso público e ser aprovado qualifica quem o faz, em vez de torná-lo desonesto, como pretende Lula. O pior de tudo é que as considerações do ex-presidente sobre os políticos aparecem no momento em que, no mundo inteiro, há um repúdio maciço a eles.

É óbvio que toda generalização é injusta. Nem todo político é ladrão, coisa que escrevo faz anos e sempre provoca rechaço entre parte do leitorado. Mas a injustiça da generalização é culpa exclusiva dos próprios políticos, cujas ações ou omissões continuadas levaram a esse sentimento.

Se todos os políticos fossem honestos, não teria havido, em 2013, um movimento de protesto cuja essência era o "fora, todos". Tudo somado, tem-se que Lula parece ter se instalado em uma bolha em que seus problemas pessoais levam a raciocínios sem pé nem cabeça.

Publicação Original: Folha de SP

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ave de Rapina e os picaretas da política

Por Claiton Selistre *

Depois de uma longa maturação, a operação Ave da Rapina saiu para as ruas com os nomes dos envolvidos. São dez vereadores – dos treze chamados pela Policia Federal – e empresários de mídia externa. Novas investigações podem identificar mais envolvidos. Espera-se que isso evolua, sem a pressão que foi colocada sobre a mídia convencional em vários momentos nos últimos meses e que deixou a operação quase esquecida.

Mais do que tudo tem agora o dilema: os vereadores citados são candidatos à reeleição. Não foram condenados, ainda, por isso tecnicamente não têm ficha suja. Mas poderíamos aceitar eticamente que esse time volte a ocupar a Câmara de Vereadores? Não é a hora de fazer pela via legal a renovação que a legislativa municipal precisa há muito tempo?

São perguntas cujas respostas por escolha simples é “sim.” A cidade precisa se livrar desses parasitas, assim como nossos olhos se voltam para o cenário nacional com o mesmo objetivo. Já foi para o lixo da história uma presidente que fez uma campanha mentirosa à reeleição e conviveu anos com a maior corrupção entre órgãos do Governo de todo o mundo. Foi substituída, é verdade, por um presidente sem voto e rodeado de figuras que já deveriam estar afastadas da vida pública. Conviver com eles será o preço da transição.

Hoje ainda deve voar da gaiola outra ave de rapina, Eduardo Cunha.

Não estaremos livres de todos os políticos que ajudaram a jogar o País na recessão, enquanto enriqueciam com propinas. Mas, pelo menos, sabemos o nome de todos eles. Cabe ao eleitor fazer a sua parte nas próximas eleições.

*Claiton Selistre é jornalista.  Fonte: Acesse a publicação original